Mais da metade das cidades recorre à natureza para combater os impactos climáticos
55% das cidades, estados e regiões estão adotando soluções baseadas na natureza como medidas de adaptação climática.
Governos locais precisam de US$ 34 bilhões para projetos de adaptação e US$ 3 bilhões para projetos voltados à natureza.
65% dos governos subnacionais identificam benefícios para a saúde pública a partir de soluções baseadas na natureza, incluindo um ar mais limpo e a redução dos impactos de eventos climáticos extremos.
São Paulo, 20 de agosto de 2026 — Cidades, estados e regiões de todo o mundo estão combatendo cada vez mais as mudanças climáticas e as perdas da natureza de forma conjunta, demonstrando que as soluções baseadas na natureza¹ estão se tornando parte integrante da adaptação climática local. É o que aponta a nova análise do CDP, a principal plataforma global de divulgação ambiental, com base nos dados relatados por governos subnacionais no CDP-ICLEI Track e no Questionário de Estados e Regiões do CDP.
Como 2026 já demonstrou — desde a quebra rotineira de recordes de temperatura até os piores incêndios florestais da história de diversos países europeus, passando por níveis excepcionalmente baixos de água no Reino Unido e enchentes extremas na Índia —, os impactos das mudanças climáticas estão se intensificando rapidamente, exercendo uma pressão sem precedentes sobre a infraestrutura, a economia e as comunidades locais.
O relatório Nature for People and Places (Natureza para Pessoas e Lugares) analisa os dados divulgados em 2025 por 1.005 cidades, estados e regiões em 80 países e em todos os continentes, representando 1,32 bilhão de pessoas. O estudo revela que 55% das cidades, estados e regiões já estão implementando ao menos uma solução baseada na natureza — como restauração ecológica, construção de infraestrutura verde ou florestamento —, enquanto 70% dos governos subnacionais com metas de adaptação climática priorizam soluções baseadas na natureza.
O estudo mostra que o calor extremo, o estresse térmico, as inundações urbanas e as chuvas intensas foram os principais riscos climáticos enfrentados pelos governos subnacionais, e que aqueles que adotam soluções baseadas na natureza estão, simultaneamente, protegendo as comunidades contra esses riscos, fortalecendo a biodiversidade e melhorando a saúde pública.
As soluções variam de acordo com a região e os riscos enfrentados pelos ecossistemas locais. Os governos locais na América Latina e na África focam na restauração ecológica; na Europa e na América do Norte, priorizam mais a infraestrutura verde; enquanto no Sudeste Asiático, na Índia e no Japão, dá-se maior ênfase ao florestamento e ao reflorestamento.
Essa abordagem baseada na natureza para enfrentar os riscos climáticos também está melhorando a saúde da população. 65% dos governos subnacionais identificam pelo menos um cobenefício para a saúde pública — como a melhoria da qualidade do ar, o ganho na saúde física e mental ou a redução dos impactos de eventos climáticos extremos.
Essas ações estão gerando um impacto positivo nas principais preocupações de saúde apontadas pelos governos subnacionais (doenças cardíacas, infecções e doenças transmitidas por vetores e doenças respiratórias), especialmente para as populações mais vulneráveis (identificadas como idosos, grupos de saúde vulneráveis e crianças).
No entanto, existe uma lacuna substancial de financiamento para a realização de projetos de adaptação climática, com quase metade das cidades, estados e regiões (46%) relatando que restrições orçamentárias representam um obstáculo. Em 2025, os governos subnacionais buscaram US$ 33,51 bilhões para projetos de adaptação, sendo US$ 2,85 bilhões necessários exclusivamente para projetos voltados à natureza.
Katie Walsh, Diretora Global para Cidades, Estados e Regiões do CDP, afirma:
“As mudanças climáticas e a perda da natureza não são problemas isolados. À medida que os impactos climáticos se intensificam, ecossistemas danificados e degradados deixam as comunidades ainda mais vulneráveis. Cidades, estados e regiões reconhecem cada vez mais que proteger a natureza e combater as mudanças climáticas são duas faces da mesma moeda.
Nossos dados mostram que essa pauta está migrando progressivamente da ambição para a ação, com as soluções baseadas na natureza se tornando medidas centrais de adaptação, e não mais iniciativas ambientais opcionais. Conforme a ação climática consistente ganha escala entre cidades, estados e regiões, destravar o financiamento do qual necessitam urgentemente para alcançar esses objetivos passa a ser uma prioridade premente para investidores e governos.
Dados ambientais transparentes podem ajudar os parceiros a identificar onde esses investimentos são necessários e a direcionar capital para projetos capazes de entregar soluções que construam comunidades resilientes.”
Maryke van Staden, Diretora do Carbon Climate Center do ICLEI, diz:
“Existe um potencial enorme de sinergia entre a ação climática e as soluções baseadas na natureza. Diante de orçamentos públicos mais enxutos, governos locais e subnacionais precisam ser cada vez mais eficientes. Eles têm a oportunidade de projetar e implementar abordagens benéficas tanto para as pessoas quanto para os territórios, explorando uma ação climática integrada — resiliência, adaptação e mitigação — em combinação com a natureza, além de proteger a biodiversidade. Espaços verdes ajudam a resfriar as cidades. Telhados e paredes verdes podem isolar edifícios termicamente. O leque de ações é vasto.
Relatar ao CDP-ICLEI Track, nossa plataforma global de relatos que monitora as ações climáticas e as necessidades de investimento subnacionais, é o que viabiliza essas análises. Conclamamos os tomadores de decisão em todos os níveis de governo e no setor privado a compreenderem melhor as opções para um impacto positivo ao explorarem este estudo.
Mantenham o rumo e acelerem o ritmo! Estamos aqui para apoiar vocês neste trabalho essencial.”
Exemplos de soluções baseadas na natureza adotadas por governos subnacionais:
A Operação Urbana Consorciada Nova Ipiranga, na cidade de Porto Alegre (Brasil), é um plano de R$ 1,8 bilhão (US$ 332 milhões) para revitalizar a bacia do Arroio Dilúvio em 1.624 hectares e 16 bairros, combinando saneamento, drenagem, infraestrutura verde e azul, espaços públicos, mobilidade e melhorias em habitações de interesse social. A cidade também busca financiamento para "jardins de chuva", utilizando a infraestrutura pública existente para captar e gerenciar a água das chuvas durante períodos de precipitação intensa.
A província de KwaZulu-Natal (África do Sul), que sofre com a escassez de água, possui um Programa Transformador de Gestão de Rios para reabilitar corredores fluviais poluídos e propensos a Inundações, aumentando a segurança hídrica e a resiliência das comunidades contra cheias e secas.
O Conselho de Auckland (Nova Zelândia) está expandindo sua cobertura de floresta urbana em 16 distritos locais e plantando 11.000 árvores nas ruas.
A campanha Cool Boulder, da cidade de Boulder (EUA), mobilizou mais de 70 voluntários da comunidade para coletar dados de temperatura e umidade em um dos dias mais quentes do ano. A ação gerou mapas de calor que orientam estratégias de infraestrutura verde para resfriar a cidade, aumentar a resiliência climática e reduzir os efeitos nocivos do calor extremo à saúde.
Notas aos editores
¹ Soluções baseadas na natureza são ações para proteger, conservar, restaurar, usar de forma sustentável e manejar ecossistemas terrestres, de água doce, costeiros e marinhos, sejam eles naturais ou modificados. Elas enfrentam desafios sociais, econômicos e ambientais ao mesmo tempo em que proporcionam benefícios para o bem-estar humano, serviços ecossistêmicos, resiliência e biodiversidade.
Sobre o CDP
O CDP é uma organização global sem fins lucrativos que gerencia o único sistema de divulgação ambiental independente do mundo. Como fundadores do reporte ambiental, acreditamos na transparência e no poder dos dados para impulsionar a mudança. Em parceria com líderes do setor empresarial, de capital, de políticas públicas e da ciência, trazemos à tona as informações necessárias para permitir a tomada de decisões positivas para a Terra. Ajudamos mais de 22.100 empresas e mais de 1.000 cidades, estados e regiões a divulgarem seus impactos ambientais em 2025. Instituições financeiras com mais de um quarto dos ativos institucionais do mundo utilizam os dados do CDP para ajudar a orientar suas decisões de investimento e crédito. Alinhada à norma climática do ISSB, a IFRS S2, como seu padrão de referência fundamental, o CDP integra as melhores práticas de padrões e estruturas de reporte em um só lugar. Nossa equipe é verdadeiramente global, unida pelo desejo compartilhado de construir um mundo onde as pessoas, o planeta e o lucro estejam verdadeiramente equilibrados. Em junho de 2026, anunciamos que o CDP evoluirá para duas organizações separadas — uma entidade comercial, o CDP, e uma fundação sem fins lucrativos, a CDP Foundation. Espera-se que essa transição para duas organizações ocorra ao longo de seis meses, e ambas continuarão unidas em sua ambição compartilhada: trazer à tona novas informações, permitindo a tomada de decisões positivas para a Terra para proteger as futuras gerações.